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Minha primeira lembrança de pessoa delicada foi uma colega da escola.
Eu devia ter uns 11-12 anos e Isabele(*) era considerada a mais delicada da classe e consequentemente a mais elegante.
Nós erámos tão pequenos mas já sabíamos disso! Pois é, elegância e delicadeza sempre chamam a atenção, mesmo num ambiente de pessoas tão jovens.
Mas afinal, como era Isabele? Resumidamente:
- falava baixo - nunca a vi gritando com alguém.
- sempre caminhava tranquilamente, ao entrar na sala, sair da escola (salvo nas brincadeiras na hora do intervalo e aulas de educação física)
- não falava mal de ninguém
- sempre encontrava os amiguinhos com um sorriso nos lábios.
- dizia "bom dia" para todos os funcionários da escola.
- retirava o material da mochila com tranquilidade, abrindo com calma seu estojo. Em seguida, começava a copiar a tarefa da lousa.
Ja a pessoinha que escreve essas linhas era bem diferente... não que eu não dissesse bom dia ou não fosse boazinha, mas eu vivia correndo e gritando, além de estabanada com qualquer coisa que caisse em minhas mãozinhas.
Mas ao mesmo tempo eu admirava aquele jeito da Isabele.
Contudo, eu não via solução: eu era estabanada e Isabele delicada - ponto final.
Acreditava que haviam pessoas que nasciam com aquele "dom" de serem delicadas e eu não tinha esse dom.
Um dia, eu perguntei para ela:
- "Isabele, como você consegue ser assim? (calma e delicada) Parece tão difícil!"
Ela disse sorrindo:
- "eu gosto de ser assim, então fica fácil!"
Aquela resposta me encantou... porque eu também gostava daquele jeito!
Note que Isabele não disse "eu sou assim"
Ao contrário, ela disse que "gostava de ser daquele jeito", ou seja, implicitamente era uma ESCOLHA dela ser delicada, organizada, calma.
Aquela resposta tão simples era a chave: tudo se resumia a essa escolha de "querer ser".
Afinal, quem era "dono" do meu corpo? Quem fazia minhas pernas caminharem ou correrem, ou minha voz se elevar ou falar baixo?
Não era algo impossível, mas algo que eu podia escolher e se tornaria fácil e gostoso com o tempo.
Fiz isso! Decidi que seria uma pessoa mais delicada, mais organizada.
No começo foi difícil falar baixo e cuidar com delicadeza das minhas coisas da escola (caderno, estojo, etc).
Mas logo logo eu comecei a colher os resultados: a professora passou a usar o meu caderno como exemplo de organização e me tornei admirada também.
Vejam bem, eu não "copiava" Isabele e não queria "ser Isabele".
Eu queria ser apenas delicada e elegante.
E gostava tanto da ideia que passei a gostar também de ser uma pessoa organizada, delicada, e isso se tornou extremamente fácil a cada dia que passava.
Infelizmente, 2 anos depois daquela conversa com Isabele eu mudei de cidade e de escola e nunca mais a vi. Mas a doce lembrança de seus modos marcaram para sempre minha vida.
E desde aquela época passei a ESCOLHER ser uma pessoa melhor: mais organizada, mais delicada, falando baixo, etc.
Não foi fácil.
Alias, me considero ainda "em evolução".
Confesso que a vontade de ser uma pessoa melhor não mudou nada de lá para cá - só cresce a cada dia. E olha que não veja a Isabele há 18 anos...
Mas as mudanças que fiz desde aquela conversa, são notadas pelos meus amigos atuais, que também me consideram calma, delicada, etc. E a mesma lembrança que eu tenho daquela Isabele, é a que escuto quando encontro velhos amigos da faculdade ou do colégio.
Essa é a primeira lembrança que tenho de uma pessoa delicada - e vocês?
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(*) Isabele é um nome fictício.
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