A Delicadeza e a Elegância são reflexos naturais de nossos hábitos e escolhas.




3 de jun. de 2010

Lembranças Antigas

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"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu."

( Mário Quintana )
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As vezes minha infância no interior retorna à memória...
Eu morava na casa amarela da rua.
Passava as tardes brincando e lendo.
Eu era da "turma da rua de cima" - será que ainda existe isso?
Com 7-8 anos eu jogava "betes" na rua com meu irmão.

Mas definitivamente, não sou mais aquela garotinha.
Cresci e tanta coisa mudou... MAS não para aqueles que me conheceram naquela época!

As pessoas fazem isso: "congelam" na memória histórias, fatos, e como eles ficam lá esquecidos, as vezes podem até causar confusões.

As lembranças costumam ser "retiradas da gaveta" na primeira oportunidade que surge, seja para narrar uma boa história, seja para agredir (as vezes sem querer).

Infelizmente passei pela segunda situação, uma coisa bem bobinha, mas que servirá para ilustrar o assunto.

Fiquei mais de 15 anos sem aparecer na minha cidade natal.
Sai de lá com 12-13 anos e fui morar na Capital do Estado, cerca de 500km de distância.
Quando voltei recentemente, para um casamento, encontrei velhos amigos do colégio.
Bom, nem preciso dizer o choque que foi para eles encontrarem aquela menininha agora BEM DIFERENTE... :-)

Engraçado, naquela época da escola eu era a garota "magrela, girafa, olivia palito, quatro-olhos, sorriso de metal" e deve ter sido a imagem "que ficou", pois NÃO FUI RECONHECIDA POR NINGUÉM.

Após descobrirem a identidade da forasteira, o primeiro sentimento foi de susto! Eles não acreditaram que era "aquela" menininha (eu devia ser muito feia!!)
Mas todos foram muito gentis comigo, disseram que eu estava linda, queriam todos os meus contatos, me chamaram para o churrasco da turma que aconteceria na outra semana, etc.

Contudo, em determinado momento da festa, um deles falou em alto e bom som, na frente de umas vinte pessoas: "Nossa, eu lembro que você comia "muita" pasta de dente quando a gente estava na pré-escola, com 5 anos"!

Foi tão ridículo que todo mundo riu!!!
E o pior: passaram a me tratar como "a garota que comia pasta de dente".

Eu não achei a menor graça.
Por vários motivos:

1º) Eu nunca comi pasta de dente. (até perguntei para meus pais depois, para confirmar)

2º) Eu não fiz a pré-escola com aquela pessoa - alias, com ninguém. Eu ficava em casa com 5 anos, com a babá. Ou seja, ele fez uma confusão.

3º) Mesmo que eu tivesse comido pasta de dente, tijolo ou papel, que importância isso teria 23 anos depois?

4º) Aquelas pessoas nem me conheciam mais, mas acharam que tinham o direito de me agredir daquela forma, durante o resto da festa!

Quanto ao homem que fez o infeliz comentário:
Será que não passou pela cabeça dele que essa lembrança poderia ser de outra pessoa?
Será que ele não pensou que poderia ofender?
Será que ele gostaria que eu fizesse o mesmo comentário dele?
Afinal, para que serve uma informação dessas???

Tentei negar, explicar que não era verdade, mas ninguém me ouviu.
Preferiram acreditar na versão daquele homem, que acreditava que era eu que comia "muita" pasta de dente quando criança. O pior, é que ele espalhava para todos que tinha "certeza", afastando assim qualquer "engano"!

Ainda que fosse verdade, porque as pessoas se fixaram numa lembrança tão antiga e que não fazia o menor sentido com minha condição atual? Mesmo que eu tivesse comido tubos e tubos de pasta de dente, uma atitude de criança não revela nada da personalidade de um adulto. Ou eles acham que eu continuava a comer pasta de dente?
Não posso ser tratada hoje, por atitudes de quando eu tinha 5 anos.

As pessoas tem que ter o bom senso de pensar nas conseqüências antes de dizer.

É claro que uma pessoa que fala uma coisa dessa NÃO PENSA, pois que utilidade tem você narrar um fato que só ofende ou denigre uma pessoa? Só por esse motivo já se torna uma atitude muito deselegante. Ademais, falar mal dos outros ou comentar lembranças que nitidamente não correspondem ao fato atual não acrescentam nada para quem ouve. Acrescente-se também que ninguém é perfeito.

Entretanto, infelizmente, as pessoas insistem em "desenterrar" lembranças, sem pensar antes nas consequências. Elas esquecem que ninguém fica estagnado no temo. As pessoas mudam, evoluem. Ninguém é o mesmo de ontem. Imaginem então se passaram mais de 20 anos?!

Assim, quando encontrares um velho amigo ou conhecido, por mais engraçada ou divertida que seja a lembrança que você tenha dele, se for algo que pode o denegrir, NÂO FALE.

Primeiro, por que não servirá de nada - afinal, quem gosta de ser lembrado por ser a gordinha da turma? Por ser o menino que fez xixi na sala de aula? Por ter chamado a professora de "mãe"?

Isso também serve para qualquer lembrança da sua vida: aquelas histórias da época da escola, da faculdade, de uma viagem com os amigos.

Talvez a própria pessoa diga: "Lembra que eu era a menininha que vocês chamavam de quatro-olhos?" - Ai sim você pode dizer que lembrava mesmo e aproveite para pedir desculpas. É muito mais elegante.

Em segundo, seria muita ingenuidade da sua parte achar que uma pessoa continua a mesma depois de muitos anos... ou você também ficou parado no tempo?

Fazer um comentário de um fato passado é algo extremamente desnecessário.
É como se você ignorasse que a pessoa mudou, evoluiu, cresceu.
Ou seja, somente você se tornou uma pessoa melhor? As outras continuam criaturas estagnadas na sua memoria? É muito injusto.

Assim, por mais divertida que seja a sua lembrança, se você encontrar novamente a pessoa, PENSE:
- será que não estou fazendo confusão?
- a lembrança só vai ofender?
- será que a pessoa não mudou desde então? De que servirá minha lembrança?
- eu gostaria que ela se lembrasse de todas as minhas criancices e erros e as ficasse espalhando por aí?

Na dúvida, trate-a como se não lembrasse do fato que pode ofender ou simplismente é inútil.

É muito mais elegante.

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Por isso discordo totalmente do Poeta.
Não continuo morando na mesma casa em que nasci.
Estou passando por profundas mudanças desde aquela época.

É muita ingenuidade achar que continuo a mesma.
Infelizmente, as lembranças não acompanham as mudanças.
Cabe a nós enterra-las e enxergar que todos evoluem e progridem.
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